A morte da humanidade
Esse texto é um comentário sobre a normalização da violência na criação das crianças
Ano passado eu cheguei à conclusão que eu queria escrever um livro infantil e ontem eu reforcei essa vontade ao assistir (obrigar meu namorado a assistir) as Guerreiras do K-Pop, a animação musical produzida pela Sony. Enquanto assistia a animação com um sorriso de orelha à orelha, eu chutei o balde das responsabilidades psicológicas de adulta como gestão interna de problemas catastróficos e dizer que, quer saber, eu amo esse momento de assistir animações, desenhos animados, ler livros infantis e, enfim, me sinto muito melhor dentro desse universo.
Após terminar o filme, já a noite, fui preparar as coisas para dormir e me preocupei se eu estava parecendo muito imatura pela minha reação a uma animação infantil, ainda mais que a única criança dentro da minha casa não estava interessada como eu. Isso porque, nesses últimos meses, tenho passado por ansiedade noturna e parte do tratamento são esses conteúdos leves que são bons independente do estado emocional.
Quando queremos criar uma criança, nós entendemos que há um abismo entre um adulto, que já consegue se regular para conviver em sociedade, e uma criança que não sabe explicar o que sente. Então, fazemos de tudo para proteger a inocência da criança, mas não a inocência moralista que acha que conhecer o perigo é o mesmo que entregá-la de bandeja, mas a inocência de mostrar que a vida pode sim ser colorida igual aos desenhos se formos bons para as pessoas, respeitarmos a natureza, cuidarmos de quem amamos e nos aceitarmos porque todos merecem aceitação e paz. É isso que o universo infantil oferece.
Para evitar crise de ansiedade noturna, vejo um pouco as redes sociais, onde costumo assistir tutoriais de maquiagem e vídeos do cotidiano, entre outras coisas que não oferecem nenhum mal. Nesse dia, porém, o algoritmo me pregou uma peça e, por algum motivo, as únicas coisas que me apareceram foram vídeos assustadores. Cenas de crime, lugares bizarros, imagens de corpos, cenas de tortura, coisas que quando falamos que ninguém deveria ver, em resposta recebemos: “você que é fresco, é só não assistir”. Não que eu tenha algum problema assistindo, nunca tive, mas me perguntei porquê alguém perderia tempo buscando esse conteúdo.
Costumo pensar que as pessoas andam em círculos, que não são exatamente uma repetição, e as coisas são parecidas, mas nunca idênticas. Essas coisas parecidas costumam ser reações que tentam parar novas fases e progressos e isso também é certo: vivemos em fases. A fase de agora é querer ser o diferentão, dizer para todo mundo olha como eu sou cool, eu escuto podcasts criminais para dormir e você não, é a nova onda de apontar para alguém e rir por ela ser “normal”, eu aguento e você não, crianção. De repente, os valores que ensinamos para as crianças de respeitar a própria humanidade perde para a sedução da crueldade e as inconsequências de poder se dizer maior, mais ameaçador.
Longe de ser a pessoa que acredita no sensacionalismo da Record, porque a questão não é acreditar em crentes que vêem o diabo em tudo menos neles mesmos, mas lembro de ler na República, de Platão, o diálogo no qual Sócrates se diz contra a poesia, de certa forma.
No diálogo, dois cidadãos conversam sobre o que pode ser permitido e o que deve ser retirado da pólis para que os cidadãos recebam apenas uma boa educação que os transforme em bons cidadãos virtuosos e a poesia foi considerada uma parte prejudicial da educação por apelar para a emoção e fugir da realidade, sendo a mímese uma imitação da imitação, já que a filosofia platônica reconhece o mundo das ideias, onde há a existência perfeita e apenas a razão pode alcançar, e a arte seria uma imitação falha do mundo sensível, que já é uma imitação do mundo das ideias.
A épica e a tragédia, nesse caso, foram dois gêneros muito criticados por apelarem totalmente para o emocional sem a influência da razão. Na épica, por um lado, é imposto sobre os deuses e os heróis um caráter desregulado de vingança, birra, rivalidades inúteis, sendo que os deuses e os heróis deveriam ser representados como o ápice da areté (excelência) para inspirar a educação humana e é o mesmo caso na tragédia, que provoca pela catarse um páthos (emoção, paixão, sofrimento) que corrompe o cidadão, uma vez que põe o espectador do teatro para sentir todas as emoções de cenas trágicas que, além de serem uma imitação afastada do ideal e do racional, é inacessível para o espectador que precisa assistir o sofrimento sem poder interferir.
Em outras palavras, o contato direto com a miséria humana é o que acaba com a humanidade porque interfere diretamente na sensibilidade da pessoa e tira o seu tato da realidade. Dois bons exemplos são como peças culturais que retratam abuso contra a mulher fazem com que seus leitores achem esse abuso normal, que a mulher abusada é parte natural da humanidade e um governo manipulando imagens para justificar o sofrimento de um imigrante e, por isso, não precisaria de intervenção ou, mesmo que não pense nisso de primeira, quanto maior o contato com essa peça que imita a realidade, menor necessidade de intervenção as pessoas sentem quando um caso de violência ocorre na sua frente, porque se é só uma cena falsa na mídia então não é real e se acontece na realidade então não é tão sério.
A proibição de certa mídia claramente não é uma solução, uma vez que a violência e a miséria já existem desde bem antes de seu registro e a censura sempre recebe grande resistência, mas há formas mais humanas de retratar os males da sociedade sem apelar para a sedução sádica da pessoa diferentona. Nesse caso, lembro da justificativa que algumas pessoas usam para ouvirem casos criminais, dizendo que precisam saber o que acontece para poderem se defender caso aconteça com elas. Não acho isso um motivo válido, apenas uma justificativa falha. Crimes horrendos em podcasts famosos são horrendos por não serem comuns e por não deixarem possibilidade de escape, então ouvir esses podcasts não só não tem nenhum benefício como torna o ouvinte insensível ao nível de gravidade do crime, como se fosse qualquer coisa, uma violência qualquer e crimes “leves” deixam de ser crimes para serem nada demais, normal, já vi piores.
Mas voltando para o sensacionalismo da Record, tem uma coisa que eu concordo com eles, não por ser demoníaco, mas por ser o melhor exemplo da ideia platônica anti-tragédia: certas dinâmicas em jogos violentos não deveriam ser permitidos por serem um degrau que chega perto do desumano. Jogos de terror não são ruins, nem demoníacos, afinal, usar um contexto de fuga de psicopatas, monstros e armadilhas psicológicas que usam os sentidos para ativar a adrenalina que impulsiona o instinto de sobrevivência, as habilidades físicas e mentais para escapar e ajudar outros a escaparem junto além de ter benefícios para a coordenação é muito diferente de ser o autor da crueldade.
As cenas que me apareceram enquanto eu tentava relaxar foram da gameplay do jogo The Outlast Trials, o spin-off da famosa série de jogos Outlast, em que o jogador testa experimentos em humanos ao ser recrutado como agente por uma corporação durante a Guerra Fria e esses personagens precisam ser dessensibilizados e, sendo um jogo de terror psicológico, as morais do jogador são testadas a cada momento em nome do avanço. Não sou contra a série de jogos, porque acompanhei por gostar e sei que o jogo também tem muitas dinâmicas boas, mas onde quero chegar é que há limites na mente humana e cruzar esses limites é o início da transformação de uma sociedade ideal em um ambiente onde a irracionalidade é o normal. Naquelas cenas não havia a fuga ou sobrevivência com estratégias, mas havia um jogador torturando até a morte pessoas indefesas de formas sádicas, então, que benefício isso traz além de dessensibilizar o jogador e torná-lo diferentão, cool?
O degrau mais alto dessa desumanização egoísta é o culto ao cult, ao nicho pseudo-intelectual, superior por arrogância que acoberta a mediocridade do espectador que, olhando com uma lupa, é só mais um culto ao ódio disfarçado de inteligência. Filmes experimentais de diretores aleatórios que se dizem reis do terror, mas, no fundo, só têm fetiche na degradação e na tortura sem nenhum conceito por trás, apenas a sedução sádica. Que benefício para a humanidade traz filmes experimentais de três horas de sofrimento psicológico e homens torturando mulheres ou animais, tanto física quanto sexualmente, até a morte? “Nem tudo tem que ter benefício para a humanidade”, mas quem vive em sociedade e usufrui de seus frutos tem obrigações com ela.
Basicamente, não tem para que existir justiça se a injustiça for vista como normal e eu não digo que esses meninos de doze anos que usam Discord e assistem esses filmes pirateados no Telegram são o mesmo que os próprios criminosos, mas digo que eles são os primeiros na lista a justificarem esses criminosos e se defenderem se fizerem igual, porque, lá no fundo, o que é tão repetido sem nenhuma interferência está só aguardando para sair e para eles é só um inseto, só um animal, só uma criança. Isso não é diabo ou falta de igreja e sim uma auto permissão opressora e violenta que sai impune com “não é nada demais, vocês que são frescos”.
Quando associamos condições naturais de humanidade (empatia, humildade, otimismo) ao feminino e ao imaturo, enquanto outras condições também naturais — porém desregulados — (raiva desmedida, força bruta, reação passional) foram associados ao masculino e ao racional, que faz com que certos conteúdos sejam vistos como melhores do que são por serem mais focados nos boys will be boys, traz essa ideia de masculinidade que permite que esses jogos e filmes sejam vistos como gosto superior por ser natural de menino forte e racional. Isso seria o que Platão entenderia como o ser irracional e inferior, que se enche de emoção e falsidade, cada vez mais longe da excelência. Não há superioridade em ser diferente por força e capacidade, mas há irracionalidade e quebra com as virtudes.
Mulheres não escapam disso, temos os livros de dark romance que banalizam abuso como um dos mais recentes males da sociedade, mas há um abismo na materialidade do problema: em um casal de irmãos, os dois irmãos podem ter contato direto com violência e ainda assim a menina não estará na estatística dos crimes passionais e violentos como o irmão, que teve a mesma exata história de vida que a sua. Vemos um padrão de gênero, em que uma não se permite e ainda assim é considerada imatura e um que se permite e ainda assim é visto como racional, banalizando a gravidade da violência como algo justificável por vir de alguém superior.
Não apenas há esse recorte de gênero, como também há um recorte econômico, uma vez que a violência é banalizada pelo valor social de quem a realiza e essa violência já banalizada se encontra com a impunidade quando as consequências de um ato violento podem ser minimizadas por um pagamento em dinheiro. Se o menino que tem contato com a violência dentro de casa e realiza essa violência já é protegido por ser algo de sua natureza (força, raiva e reação), o menino que nasceu em berço de ouro e dominou tudo que quis não só é protegido da gravidade de seus atos como descobre que seus atos nunca serão sequer punidos independente de quantas vezes realize a violência.
Em um caso de peças culturais trágicas, que falseiam a realidade até o ponto de nem a reconhecermos como um problema que precisa de intervenção, a mulher e outras minorias raramente estão na posição ativa da violência, muito pelo contrário, e isso falseia ideias que permitem a violência, diminuindo a humanidade de um pelo costume com a sua violação e, consequentemente, justificando a violência do outro.
O pensamento de que há uma certa cultura que não deve ser permitida pode me fazer ser vista como fraca e imatura, mas maturidade para a natureza não é a mesma coisa que esse conceito incoerente e arbitrário inventado pelos humanos para justificar o ruim, o feio e o baixo. Animais maturos caçam e são leais a sua comunidade, frutas maduras nutrem e curam, mas, por algum motivo, maturidade para os humanos está associada a um conceito de masculinidade que, na prática, interrompe a humanidade do outro, vai contra a razão e a favor do próprio egoísmo, da própria vontade e contra o bem estar da comunidade que está inserido. Em outras palavras, as características associadas ao masculino na prática, insuficiente para desvincular o masculino da superioridade, são, na verdade, o que vem matando a humanidade da espécie.
Meninos precisam se validar pela conquista e a não correspondência justifica a violência, meninas precisam ser empregadas e se validar pela servidão sob dominação, crianças deixam de brincar para assumir responsabilidades alheias e, quando percebem, violência não é nada demais e o gosto pela violência se torna um mecanismo de defesa. A violência não é mais um mal a ser expulso da comunidade, mas é um estímulo que legitima a falta de tato pela ausência de uma criação de base, de uma liderança que mostre qual conteúdo pode ser consumido e a incapacidade de escapar das seduções hierárquicas de poder pisar ou interromper alguém tendo dinheiro para comprar seu silêncio.
Ser diferentão, cool, não é apenas sobre o que faz, mas porquê faz. Pode haver mil justificativas: aprender o limite da maldade, saber reagir, se esconder dos próprios sentimentos, mostrar para alguém que é forte, se ver como conquistador… o resultado não fica parado dentro da mente, fica esperando o momento ideal para sair, o ser mais vulnerável para ser o alvo. A épica e a tragédia massageiam o ego pelo apelo emotivo, por ensinar e validar a irracionalidade, a vingança, a desmedida e a violência como ensinamento de excelência na pólis grega, que deveria ser o berço da razão, dos direitos civis e da igualdade de deveres e de alma.
Então, o que tentamos ensinar as crianças que deixamos de esperar dos jovens e adultos, ou melhor, o que queremos que as crianças aprendam sem nenhum exemplo e depois nos surpreendemos quando fogem da nossa expectativa pelo que permitimos ao redor deles? Muitos fãs de coisas infantis se sentem imaturos, mesmo que esse conteúdo que consomem seja a epítome do que há de melhor a se manter e todos os ideais a proteger na sociedade enquanto aquele que se sente superior e maturo se diz legal por ter fetiche em tortura, não vomitar assistindo gore e ser a pessoa cool que gosta de ver sangue retirado pela violência. Forçar os limites da própria humanidade para se dizer forte não é força, é irracionalidade e mediocridade.



Que texto incrível! Quando era adolescente assistia bastante terror e true crime mas conforme fui descobrindo sobre minha ansiedade entendi que não fazia sentido fazer meu corpo passar por um estresse desnecessário - além de achar que tudo aquilo aconteceria comigo. Perfeita em suas colocações!!
Esse é o melhor texto que eu já li em 2026 e afirmo isso com plena certeza de que ninguém pode produzir algo tão impecável quanto você.
Primeiramente, eu também amei "Guerreiras do Kpop" e me senti em êxtase por um bom tempo após o filme acabar; a animação tentou e conseguiu se adaptar à linguagem atual (sem saturação de gírias e falas genéricas ou saturadas), possui uma mensagem legal e não peca em nada a não ser desenvolver mais as outras duas do trio (que, inclusive, mal lembro o nome).
Agora, sensacional todos os pontos que você trouxe no texto, Laises! Eu te ovacionaria por 10 minutos em pé por esse artigo; tudo que você escreve é uma nova reflexão e uma aula que traz perspectivas diferentes, mas esse foi espetacular demais.
Ultimamente, venho pensando muito em como as pessoas se acostumaram com certas violências e isso refletiu na realidade que, por mais óbvio que seja, não questiona ou aponta a raíz desses discursos assustadores e notícias cada vez mais cruéis.
O conteúdo, em todos os seus formatos, apela para aquilo que choca apenas pelo retorno da audiência e se esquece da responsabilidade que tem em fazer parte da construção mental dos indivíduos em uma sociedade instável e ambiciosa – não de uma forma admirável, mas duvidosa – ao disseminar certas coisas. Como você mesma escreveu, não é sobre conter as diferentes formas de expressar uma vontade, uma crítica, um caso ou uma realidade, mas ser consciente quando aquilo surge como uma chavezinha na cabeça das pessoas; e a qualquer momento, pode ter consequências reais.
Enquanto te lia, muitas outras questões foram se pontuando na minha cabeça, mas acho que a mensagem que mais se firmou foi essa normalização da violência que começa em uma raiz quase-muito discreta. 🌟