A questão da fanfic
Esse texto é uma reflexão sobre o que é literatura ou arte suficiente
“Fanfic é uma forma que a cultura repara o dano feito em um sistema em que mitos contemporâneos pertencem às corporações ao invés do povo”. Tradução livre da citação de Henry Jenkins, diretor de Estudos de Mídia da MIT. Essa citação está fora de contexto e o pensamento de Jenkins é bem mais complexo, mas a discussão ainda vale.
Literatura, desde sempre, pertenceu às elites e quem estava fora dessa categoria era visto como um ponto fora da curva, alguém que conseguiu fazer literatura mesmo não sendo parte do grupo capacitado, a exceção à regra. Em todas as eras foi assim e, quando olhamos os registros, vemos que eles foram escritos por quem tinha a possibilidade de escrevê-los por serem alfabetizados, letrados, instruídos e em posse da posição de contar literatura em público ou escrever em papel. Mulheres ricas escreviam literatura que nunca pôde sair do ambiente doméstico, pessoas negras não tinham acesso ao letramento, pessoas pobres não tinham acesso aos materiais caso conseguissem acesso ao letramento.
Isso não mudou só porque passamos a ter acesso a papelarias baratas e tecnologia, porque, ainda que a escrita seja uma arte íntima pelo escritor para o escritor em um sentido romântico, a escrita também é um produto que depende do diálogo com um leitor e que precisa de visibilidade para se realizar esse diálogo. Essa visibilidade também se resume em vendas e, quando vemos as listas de best-sellers ou listas feitas por booktokers de melhores livros que leram no ano, as categorias escolhidas ainda são bem delimitadas em autores de temas específicos, centrados em uma classe específica e em um ambiente específico que são reconhecíveis por esse grupo que tem possibilidade de comprar esses livros.
Nesse meio tempo, comparamos esses livros lidos no booktok e na prateleira dos homens que supostamente venceram na vida e vemos diversas edições que, a esse ponto, pertencem mais à editora do que ao autor. Mudanças desnecessárias e, às vezes, propositais independente do objetivo do autor, pouquíssimas diferenças além da capa, ilustração e uma folha que não seja branca demais e o lucro das vendas fica, na maior parte, para a editora. Cadê o diálogo entre autor e leitor em meio a essa corrida pela compra da edição mais bonita ao invés da edição mais próxima da escrita original? Não existe espaço para o diálogo quando a ideia é fazer leitura dinâmica para dizer que leu 100 livros ao mês diretamente da editora Penguin ou DarkSide e que tem uma estante cheia de capas bonitas. Nessas prateleiras, só há corporações lucrando.
Como a fanfic entra nisso? Spirit Fanfic, Fanfiction.net, Wattpad, Archive of Our Own, a literatura dentro dessas plataformas, sejam elas privadas ou não, não pertence à plataforma e o autor que quiser repostar a mesma fanfic em diferentes plataformas ou apagar de um minuto para o outro, republicar no meio da madrugada e múltiplas outras decisões a serem tomadas, pode tomar essa decisão, porque a literatura pertence a ele.
Sim, há problemáticas como a questão dos direitos autorais no caso de escrever uma fanfic com base na obra de outro autor, mas essa é a questão mais não-problemática de todas as questões da literatura, afinal, quem é capaz de escrever centenas de páginas usando o nome Harry Potter e Hogwarts é capaz de escrever centenas de páginas usando qualquer outro nome, aparência e ambiente, bastando apenas querer. Não é só a inovação que faz um escritor e sim o ato de escrever com coerência e com um propósito. A Fanfic também passa pelo aspecto mais essencial que é a originalidade do sujeito escritor em uma era na qual os leitores lêem os clássicos pulando de fala em fala, chamando tudo parece plágio, mesmo que toda a história da literatura tenha suas raízes na imitação do que é bom.
Além disso, em momentos de conservadorismo e censura, assim como toda a experiência feminina em um sistema patriarcal, as editoras deixam de publicar ou não conseguem vender livros rotulados como “lacradores”, mas esse problema não existe nas plataformas de fanfic. Não é sobre uma plataforma totalmente acolhedora tanto como empresa quanto como leitores plurais, mas a empresa Wattpad, por exemplo, nunca enviaria um email dizendo: “não vamos publicar sua novela, porque os elementos que a compõem não correspondem com as nossas morais como marca”. Se o autor quiser escrever personagens de todas as orientações sexuais, relações poligâmicas ou formas humanas fora do esperado, o autor pode escrever, publicar e ser lido sem se preocupar com gastos de publicação ou se seu público alvo pode pagar pela leitura.
Sim, alguém sempre lucra com isso. O Wattpad passou a ter anúncios recentemente sem que os autores ganhassem algo e o Archive Of Our Own, que é mantido por meio de doação, ainda gera lucro para o Google, mas clicar nesses sites é gratuito, ler é gratuito, publicar é gratuito e conversar com o autor é gratuito. Isso não é possível a partir das editoras e dos ambientes literários mais exclusivos como a Bienal ou outros festivais.
Ainda assim, mesmo em meio a tantas discussões importantíssimas para a literatura que foram apresentadas pela fanfic desde que as estudantes dos anos 60 publicaram no jornal da escola o que seria a primeira fanfic já escrita usando o universo do sci-fi Star Trek, a maior questão que problematiza a fanfic continua sendo “isso é coisa de menina”. Aqui, a linha tênue entre plágio e inspiração também passa por recorte de gênero. Os grandes literatos ao longo da história sabiam que a visibilidade viria com a participação em lugares comuns da literatura, dos movimentos e elementos em comum, muitas vezes até referências diretas, porque, novamente, desde o início da filosofia literária ocidental (há controvérsias), o correto era imitar o que é bom e até nisso as mulheres foram apagadas.
Tanto a inovação quanto a imitação são menosprezadas no universo feminino, mas, mesmo quando o cânone literário é obrigado a se curvar perante escritoras geniais e assumir, muito tarde, que elas são geniais, as mulheres que imitam não recebem o direito nem o mínimo reconhecimento da literatura como literatura. Por que fanfic não seria literatura se tem todos os requisitos da literatura? E por que meninos não escrevem fanfic tanto quanto mulheres? Como já lemos por aí críticos e teóricos literários: literatura é masculina, enquanto à mulher é reservado o espaço da literatura feminina de menor valor, forçado em plataformas menos respeitadas. Virgílio foi grande ao imitar a tradição homérica, de fato, mas a imitação feminina é só plágio, porque o espaço de literatura não é reservado a ela.
Não que toda imitação seja fanfic, porque o quê da fanfic está na relação entre autor e obra e o autor precisa necessariamente ter um vínculo afetivo com a obra que imita ou personagem que “pega emprestado” da vida real. Dante coloca Virgílio como personagem, um guia espiritual que foi, uma vez, o coração da Roma e Itália. O fato de Virgílio ter milhares de anos e ser parte do cânone não faz com que esse elemento de introduzir uma pessoa como personagem central seja diferente do elemento de introduzir uma pessoa como personagem central em uma história contemporânea. O elemento é o mesmo.
Não é necessário ser canonizado como Dante para ser considerado escritor, então, o que aquelas estudantes dos anos 60 fizeram de errado para nem sequer serem consideradas escritoras? Essa reflexão não é sobre obrigar pessoas a gostarem de fanfic, canonizarem escritores de fanfic ou algo assim, não é sobre honra, mas é sobre entender porquê essa escrita não é considerada um ofício de escrita só por não passar pelo processo de publicar por meio de uma editora ou de contatos influentes no meio editorial.
Muitos autores, aspirantes a escritores extremamente talentosos, começam pela diversão, pelos assuntos que já conhecem e amam e pela inspiração. Muitas das vezes começamos com uma fanfic ruim aos 13 anos de idade e depois uma fanfic longa e complexa aos 18, um conto bem trabalhado aos 22, uma novela de iniciante aos 25 e, a partir dos 30, páginas e páginas foram escritas com cuidado e dedicação. Começar com uma fanfic não invalida a trajetória literária, então não faz sentido fanfic não ser considerada literatura, afinal, nem mesmo a academia das Letras consegue definir literatura, então quem somos nós para dizer o que não é.
Sim, já ouvi “se você consegue escrever uma obra original, por que não escreve ao invés de escrever fanfic?” e, sim, isso é uma pergunta válida, mas que sempre vem carregada de uma arrogância inútil. Porque eu quis, me fez feliz. O quão amarga e egocêntrica tem que ser uma pessoa para invalidar o exercício literário de alguém e considerar perda de tempo? Se uma pessoa está praticando sua arte, você permite que ela pratique e não se intromete, porque todo gênio já passou por uma suposta perda de tempo de propósito pelo amor à arte.
Às vezes esses mesmos nomes enormes da literatura e homens que menosprezam meninas que escrevem fanfic usam nomes e universos que já conhecem e amam como fonte de inspiração e treinamento de escrita, exercício prático até chegar à maestria por conta própria. Esse é o acesso mais fácil que temos a uma arte tão inacessível e foi obra de quem não é considerado ao menos um escritor, muito menos um literato.



Eu tenho uma fanfic publicada que alcançou 143K de visualizações e 5,8K de curtidas, mas ainda fico acanhada de assumir isso como se a pior coisa do mundo fosse se aventurar em uma literatura que, justamente como você escreveu, não passa pelas críticas de uma editora e só precisa de uma relação afetiva da obra com o escritor; além das questões de gênero, que classificam isso como o auge da podridão feminina, existe esse pré-conceito sobre o tema dessas histórias que só aumenta a ilusão de que fanfic é ruim demais para falarmos sobre fora da própria plataforma de fanfic. Sim, podemos falar sobre os direitos autorais, apelações específicas e banalizações de assuntos sérios, mas a gente sempre sabe quando a crítica só vem de alguém que se julga superior por ler fulano e ciclano e quando vem de uma pessoa preocupada com o valor da literatura em meio aos fáceis acessos e independências dela.
Enfim, sempre amo como você desperta uma discussão importante nos textos, Laises. Texto muitíssimo bom! 🤝